domingo, 22 de setembro de 2013

NUVENS, RAÍZES. FLORES


 
“Para o médico é muito evidente, mas para o leigo talvez não:
a pneumonia não é ali – ali é o coração.

A pneumonia são essas manchas brancas
essas nuvens – está vendo? essas nuvens brancas

aqui, como umas raízes”
− olhei: havia na chapa, de fato,


uma noite nebulosa que era também uma ár-

vore  revirada.

 
§

As nuvens de um céu da infância?
Raízes da algaroba plantada por meu tio?


Antes da saúde, foi-me dado saber:
metáfora ou memória podem ser traição.

 
§

Ah, mas como quisera ter dito:
AS FLORES DO PÁTIO BOIAVAM NO AR.

Foi no dia da alta. Consta que ainda houvesse

alguma radícula, ou cirro, em meu pulmão:
“A verdade clínica é sempre mais rápida que a radiográfica”

− ainda ouvi. Mas calei sobre as flores.

 
§

Menino logrado, vinguei-me
com uma colagem. Vai aqui:

 
 A verdade poética, embora muito evidente
é sempre mais lenta.

Mais lenta que a clínica, mais lenta

que a radiográfica.
As nuvens nos traem. As memórias

igual: as raízes.

Bate um coração com pneumonia.

 
§

Respiro. Durante tudo,
o amor frequentou o céu embruscado, enredou-se

na garabulha. Fácil, fácil,

desvencilhou-se. Entrava sem avisar:

simplesmente escancarava a janela.


 §

Cortar as unhas, cabelos! O corpo-algaroba
teimando em primavera... O poema

seguira a mesma lei: fiz ainda uma canção. Encerro com ela:

 

Leigo não sou,
doutor é que não:

sobra-me o vão

entre o silêncio e o jargão.
Nuvens, raízes

− tu vens, amor... E não me dizes!
 Saudade, saúde: dou-te a muito evidente

flor de ar – convalescente.
 



Edvard Munch: Autorretrato depois da gripe (1919) 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Lêdo & Lygia: São Paulo, Livraria Teixeira, 1973




O encontro foi matéria da coluna de 10 de dezembro de 1973, do jornalista Tavares de Miranda, na Folha de São Paulo. Na Livraria Teixeira, em Sampa, Lêdo Ivo lançava Ninho de cobras, e Lygia, As meninas, ambos publicados pela José Olympio. Na legenda da foto, Miranda adverte que, “quando duas personalidades literárias como Lêdo Ivo e Lygia Fagundes Telles [...] se encontram, o melhor que vocês têm a fazer, meus amigos, é escutar o diálogo”. E apresenta aos leitores duas pequenas séries de questões de um escritor a outro, no estilo “pingue-pongue” que ainda hoje é mania de nossa imprensa.
Se o colunista ou outro colega da Folha pautou as perguntas, não sei. Mas o encontro  vale pelo que significa como "momento" de nossa cultura, e sobretudo pelos dois autores, tão diferentes e tão próximos: um poeta que escreve romances e uma romancista que sempre se refere a poetas quando chamada a refletir sobre seu ofício (é o que faz Lygia, aliás, em uma das respostas, como poderemos conferir).
Abaixo transcrevo a matéria, que ilustrei com capas das primeiras e das mais recentes edições de Ninho de Cobras e de As meninas. Não estranhem a ausência da primeira pergunta: é assim mesmo que está no jornal, subentendida na resposta de Lygia. Registro ainda que, tendo tomado conhecimento desse  encontro memorável pesquisando no Acervo Lêdo Ivo do Instituto Moreira Salles (RJ), fiquei surpreso e feliz ao descobrir que a própria Folha de São Paulo disponibiliza gratuitamente a matéria, como outras de seu acervo, no site do jornal (por tempo indeterminado, e quero crer que eterno). Clique aquie veja o arquivo original da Folha, enquanto podemos!  
Desta vez não vou me alongar no post, que também destoa dos demais por não ser exatamente uma reflexão de crítica literária. Mas o motivo é dos mais nobres: aí estão, juntos, meus dois queridos escritores, em uma cena que materializa a mélange de minhas leituras mais afetivas: Lêdo Ivo, com seu mar simbólico, seu pendor para o mergulho na história alagoana e no passado literário, que um dia explodiu na prosa luxuriante de Ninho de cobras; e Lygia, urbana e intimista, com o jogo de vozes de suas meninas, a maestria do detalhe, os pequenos símbolos cotidianos alçados a uma dimensão maior − instituindo no texto aquele simbolismo ad hoc que José Paulo Paes tão bem definiu, em ensaio sobre a autora, nos Cadernos de Literatura Brasileira do IMS.
Mas já vou falando demais. Como bem dizia Tavares de Miranda, em 1973 e ainda com grande valia, o melhor a fazer é escutar esse diálogo. Vamos a ele!
 
 
Lêdo Ivo pergunta a Lygia Fagundes Telles...
  
− Parti da realidade para a ficção. Sei que em estado bruto minhas meninas existem, estão aí. Como ponto de partida tomei-as assim meio informes, sem características mais profundas, os traços ainda indefinidos; vieram como nebulosas. Tomei-as e fui trabalhando em cada uma, lenta e pacientemente, afinal, tudo somado, creio que há mais de três anos, convivi intimamente com essas três: Lorena, Lia e Ana Clara. Em qual delas eu fiquei mais? Ah, difícil dizer. A uma dei um gesto, a outra, um pensamento mais secreto que morreu em minha boca para renascer na de Lorena ou Lia... As personagens são como vampiros, cravam os caninos na nossa jugular e, quando amanhece, voltam aos seus sepulcros até que anoiteça de novo. O fim do livro é a tampa que baixa sobre esses nossos visitantes. Definitivamente? Não. Um dia, de repente, com outro nome e outras feições, volta escamoteada a mesma personagem, elas gostam da vida. Como nós.
 
2 - Que importância tem o amor na infraestrutura de suas personagens?
− Importância definitiva. Escrevi esse romance [As meninas] com o maior amor, me emocionei com as personagens principais, que são jovens e amam e desamam o tempo todo e nesse desandar emocional fui também me comovendo, mas sem perder as rédeas no galope, um galope perigoso porque pode descambar para o sentimentalismo. Então a gente precisa ficar completamente lúcida para que o Amor – que é imprevisto, loucura – não se enfraqueça na sua própria força.
 
3 − O escritor pode às vezes ter remorso do que faz com as personagens?
− Sim, pode ter remorso. Como a gente pode ter às vezes remorso com as personagens de verdade, aquelas que um dia a gente feriu – sem querer ou não, consciente ou inconscientemente – e esse ferimento que não cicatriza é visível até na morte. Ah, o remorso.  Eu não queria matar a jovem – a mais louca delas – mas descobri que o remorso que eu teria por deixá-la viva seria mais agudo do que se a eliminasse.
 
4 - Que é que você pensa do papel do escritor? Da luta do escritor?
− Nesta nossa guerra sem testemunhas temos que ser principalmente as testemunhas dessa nossa sociedade com todos os seus vícios. E raras virtudes. Lutar com as palavras é a luta mais vã/ entanto lutamos/ mal rompe a manhã. Mal rompe a manhã. Uns lutam com o cimento armado. Com as leis. Com os bisturis. Com as máquinas – tantas e tão variadas lutas. Eu luto com as palavras. É bom? É ruim? Não interessa. É a minha vocação.
 
Lygia Fagundes Telles pergunta a Lêdo Ivo...
 
A – Por que o seu romance tem, como subtítulo, “uma história mal contada”?
− Porque, na verdade, é uma história mal contada, quer como técnica de narrativa, quer como intenção deliberada do autor de apresentar um pequeno universo imaginário fervilhante de suposições, dúvidas, versões e interrogações sobre a própria realidade da intriga. Entendo, aliás, que o romance, como história bem contada, pertence à literatura do século XIX. Flaubert, Balzac e Tolstói são os grandes mestres, nesse sentido. As transformações que desde o começo deste século se acentuaram no romance, documentando incontáveis mudanças em sua forma, forçaram os romancistas a adotar um sistema narrativo caracterizado pelo contraponto e pela polilinearidade (que substituem a linearidade clássica) − Joyce, Faulkner, os expoentes do nouveau romanfrancês [...] aí estão, ao lado de Proust e de Henry James, para testemunhar essa nova realidade do romance.
 
B – Ninho de Cobrasé um romance de amor?
− História, ou conjunto de histórias que refletem os sentimento fundamentais do homem – amor, ódio, medo, ambição,  incerteza – o meu livro é, também, um romance de amor. Assim como é um romance de terror e violência, ou de busca e perseguição de uma verdade que tanto é divina como é humana. A minha intenção foi contar uma história, ou malcontar uma história.
 
C – A raposa que, no seu romance, percorre a cidade adormecida e depois é abatida, tem algum sentido simbólico?
− A leitura de um romance funde a imaginação do autor com a do leitor, que também “colabora” com a obra, na medida em que a interpreta ou a reinventa à sua maneira. Dentro dessa perspectiva, a raposa do meu romance pode significar algo – a fonte da vida, a inocência, a liberdade, o amor  – mas isto depende do leitor empenhado em ver numa obra os vários níveis de significados que estiveram ou não presentes durante o seu processo de criação. Mas é preciso reconhecer que, às vezes, certas verdades, evidências, aspirações ou angústias penetram numa obra sem que o autor o pressinta na ocasião em que a escreve.
 
D – Quais são os seus romancistas prediletos?
 
− Depende do ano, do mês e da hora. Além disso, não sei se esses autores favoritos (Proust, Melville, Dostoievski, Flaubert, Balzac), realmente me influenciaram, ou se minhas marcas devem ser buscadas em outros lugares – numa bula de remédio, num romance policial ou num anúncio de jornal.
 
E – A literatura está morrendo?
− Documento e testemunho do homem e da vida, ela existirá enquanto existir o mundo. Algúem tem que dizer o que está realmente acontecendo. E este alguém são os poetas, pintores, escultores, músicos, romancistas. Isto é, alguém dotado da capacidade de ver e de contar ao seu semelhante o que viu e sentiu, através de uma forma artística dotada de validade e emoção
 



sábado, 2 de março de 2013

Série Resenhas # 1: "Mormaço" (poesia, 2011)


Com Mormaço (ou "Calima", em espanhol), ainda inédito no Brasil, fecha-se o conjunto da obra de Lêdo Ivo (1924-2012), conjunto até então indefinidamente aberto, desde que, em 1944, um jovem alagoano, recém-chegado ao Rio de Janeiro para estudar Direito, publicara As imaginações, a que logo se seguiram dois romances, alguns ensaios e mais sete livros de poesia, até o final da mesma década. Aos poucos, o pai, o advogado Floriano Ivo, que de Maceió lhe pedia por carta notícias sobre recursos interpostos nos tribunais superiores (então com sedes no Rio), ia se acostumando ao caminho abraçado pelo filho poeta, embora às vezes com certo desagradado, por saber pelos jornais ou por terceiros dos lançamentos, dada a demora dos correios.

Sessenta anos depois de As imaginações, ao lançar a sua Poesia Completa, em 2004, Lêdo Ivo ainda publicaria Réquiem (poesia), O ajudante de mentiroso (ensaio), E agora adeus (correspondência passiva),O vento do mar (seleta de prosa e poesia) e Alagoa australis (seleta de poesia com temas alagoanos), traindo reiteradamente o título do alentado volume de quase 1.100 páginas, o que apenas confirma os versos dedicados ao pai, em Justificação do poeta, poema do livro primeiro: “Pai, meus pensamentos não cabem na tua sala com piano tranquilo a um lado e escuras cadeiras vazias perto da janela”. E por causa de coisas desse tipo, Sérgio Buarque de Holanda diria que aquele jovem era um poeta “de versos longos e nome curto”, em uma geração de “nomes longos e versos curtos”.
(...)

Leia o texto completo no site do Jornal Rascunho:
A morte solar de Lêdo Ivo

sábado, 12 de janeiro de 2013

A maldição de Orfeu



"Orfeu trovador cansado", tela de De Chirico
 

             Nas páginas do número V da Revista Brasileira de Poesia, veículo de divulgação do Clube de Poesia de São Paulo (agremiação paulista da Geração de 45), Domingos Carvalho da Silva desanca sibilações e rimas internas (que lhe parecem defeitos!) em Acontecimento do soneto, obra com que, em 1946, Lêdo Ivo reativaria a forma fixa banida pelos modernistas – basta lembrar de um Oswald de Andrade falando ironicamente no bacilo “sonetococus brasiliensis”. O episódio da crítica de Domingos Carvalho da Silva – o mesmo que reprovaria, em João Cabral de Melo Neto, o uso da palavra “cachorro” em O cão sem plumas, por achá-la “apoética” −, é um exemplo das dissimetrias entre os integrantes da chamada Geração de 45, grupo até hoje proscrito “em bloco”, desde que, ainda naqueles idos, José Guilherme Merquior inicia o discurso crítico de exceção, no artigo Falência da poesia ou uma geração enganada e enganosa: os poetas de 45.

            Nesse texto, Merquior excetua cabalmente apenas o nome de João Cabral de Melo Neto (com breves ressalvas a outros nomes), que lhe parece em tudo diverso do grupo, esquecendo-se, porém, de observar o quanto o próprio Cabral já então ecoava os paradigmas de contenção e síntese que eram os mesmos de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Darcy Damasceno e Domingos Carvalho da Silva, mas que, em sua mão, ganhavam (e ganhariam bem mais) novas e férteis formulações. O crítico fala mesmo em “incômoda convergência cronológica”, dando assim o mote para o discurso de exceção – Cabral como o único nome relevante e por isso mesmo distônico, tom que permanecerá em estudos de Haroldo de Campos (O geômetra engajado), João Alexandre Barbosa ( A imitação da forma ) e Benedito Nunes ( João Cabral de Melo Neto ).

            Estavam lançadas as bases para a leitura em bloco e a proscrição dos demais poetas de 45, na verdade um grupo heterogêneo que contava nomes tão diversos como Octavio Mora, Paulo Mendes Campos, Bueno da Rivera ou Lêdo Ivo, sendo que a este último, embora proscrito pelo setor paulista da geração, caberia para sempre o título pouco heroico de “líder”, por ter sido um dos editores da Revista Orfeu, que circulou no Rio de Janeiro.
            É preciso salientar, porém, que o próprio Merquior chamaria a atenção para a necessidade de rever seus juízos:

Tenho fama − justificada − de detrator da geração de 45. [...] Mas não vacilarei em fazer aqui um bocado de mea culpa, retratando-me da negligência, relativa ou absoluta conforme o caso, em que deixei por longo tempo valores poéticos indubitáveis na obra de Bueno de Rivera, Lêdo Ivo ou Mauro Mota. Até 1974, eu ainda assinava ensaios condenando em bloco o ‘malsinado neoparnaso’ de 45. Hoje teria que discriminar muito mais [...]

             A provocação – a si mesmo, mas também à crítica em geral – é de 1983, mas parece não ter sido levada muito a sério, seja pela fatalidade (Merquior morreria pouco depois), seja pela comodidade, já que rever tanta coisa, sobre tanta gente, requer imenso dispêndio de tempo e alguns desagrados, em um ambiente crítico que hoje é sobretudo acadêmico. Mais fácil é perseverar na consolidação do discurso estabelecido, o que todavia nada acrescenta mesmo à compreensão do próprio João Cabral, que, embora tenha ecoado depois sua rejeição ao grupo de 45, ao tempo da estreia escreveu artigos sobre a geração e colaborou com traduções (e comentários) na Revista Brasileira de Poesia.

            Quanto a Lêdo Ivo, seria ainda o autor proscrito por ter, em um dia qualquer da década de 1940, em algum periódico dos muitos que circulavam então, proposto que se “jogasse uma pedra na vidraça de Drummond e se fizesse uma romaria ao túmulo de Bilac”. A raridade bibliográfica, citada à exaustão quando se fala da Geração de 45, encontra-se no extinto A província de São Pedro, fonte a que cheguei pela informação do próprio Lêdo Ivo, e que aqui vai citada em seu contexto, para que se tenha uma melhor dimensão do alcance e da generalidade dos termos:

O maior escritor de minha geração será aquele que organizar uma romaria ao túmulo de Olavo Bilac e, regressando à noite do cemitério, dirigir um “quebra-pedra” literário, jogando uma pedra na vidraça da janela onde o sr. Drummond fita o mar, atiçando os vinte e sete cachorros que protegem a casa do sr. Murilo Mendes, surrando o sr. Lins do Rego e provando que toda a obra do sr. Manuel Bandeira posterior a “Ritmo Dissoluto” é indigna até de citação.

            Como se vê, o ataque é geral. Mas, haverá algo de novo no front? A briga entre gerações literárias, pelo menos até o século XX (não por uma maior civilidade do meio, mas apenas porque, agora, talvez não haja "-ismos") sempre foi esperada e até desejável. Dentre uma centena de exemplos, lembremos da célebre “Questão Coimbrã”, em Portugal, com o jovem Antero atacando o provecto Castilho. O que difere, em 1945, é que os jovens se ocupavam do passado – já que os velhos insistiam na obsessão do futuro. E talvez seja isso, precisamente, que incomode, pois 1945 desestabiliza as expectativas em relação aos polos juventude/ senectude. Então não estamos discutindo propriamente literatura, mas nossos preconceitos cronológicos: um modo de ser jovem e um modo de ser velho. Psicologia, Antropologia ou Direito Previdênciário?

Alguns nomes da "Geração de 45" (da esqueda para a direita): Darcy Damasceno, Octavio Mora, Marcos Konder Reis, Domingos Carvalho da Silva, Fernando Ferreira de Loanda, Lêdo Ivo e Afonso Félix de Souza.
     

      

      Fato é que Murilo Mendes acabaria padrinho de casamento de Lêdo Ivo, e Manuel Bandeira lhe atribuiria um prêmio de poesia, convertendo-se depois em seu grande amigo e até vizinho, em Teresópolis (a capa da primeira edição de Finisterra é uma foto de ambos). José Lins do Rego saudaria também “O poeta Lêdo”, em artigo depois reunido por Lêdo Ivo na obra O cravo de Mozart é eterno, coletânea de crônicas e artigos do autor de Fogo Morto.

            Quanto a Drummond, ele mesmo reuniria de forma bem humorada todos os textos paródicos ao seu poema da pedra no meio do caminho, livro este recentemente reeditado. O artigo de Lêdo Ivo, talvez por não parecer a Drummond uma paródia típica (como de fato não é), ficaria de fora da Biografia de um poema, sendo apenas mencionado, por uma citação de citação, na edição nova, perdendo-se, também aí, a grande oportunidade de oferecer ao público leitor a íntegra do famigerado texto de Lêdo Ivo.

            Este atravessaria décadas com sua escrita multifária, também ela distônica, embora de modo diferente e até antípoda à de João Cabral, autor com quem manteve longa amizade e cujo diálogo constante sobre preferências literárias é talvez a maior prova do equívoco em que incorre a crítica, quando “pinça” um nome, carregando com ele nada menos que a sua poética peculiar, ou seu modo pessoal de reelaborar paradigmas partilhados pelo grupo, ainda que, no caso de Cabral, isso talvez equivalha a falar-se em genialidade. Mas este é outro termo proscrito pela crítica acadêmica, e como o artigo é sobre Lêdo Ivo – que nunca foi tido por gênio e talvez nem desse uma estentórica gargalhada ante a possibilidade --, deixemos disso.

            Conectá-lo, porém, à Geração de 45, ainda hoje, é um imenso equívoco. Seria como condenar um velho a passear na rua com fardas de colegial, ou, estando agora Lêdo Ivo morto, condenar o seu fantasma a cometer o mesmo crime de Orfeu – afinal o patrono daquela revista: olhar para trás.
 


P.S.: Para quem aprecie textos acadêmicos, acaba de ser publicado, sobre o tema da Geração de 45, um artigo meu em duas revistas: a REEL, da Universidade Federal do Espírito Santo, e a Inventário, da UFBA. Ali estão as referências e um maior aprofundamento do tema, embora sob o jargão teórico. Seguem os links: