quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

NATAL DE HERODES



…for me personally at this moment it would mean that God had given me the power to destroy Himself. I refuse to be taken in.”

AUDEN. The massacre of the innocents.

Nasce. E me apavora
sabê-Lo. Foi um pesadelo:
a manjedoura,
os bichos de pelo
que O circundam.
Não posso crê-lo:
mente o demônio
vindo em meu sonho,
que um rei não nasce
como um campônio!
Mas a estrela – dá-se
que a estrela paira
ainda lá?
Mentiram-me os magos?
Ou mente o demônio,
que é pai da mentira?
Quisera eu primeiro
adorá-Lo; primeiro
com ouro, incenso, mirra
e depois afagos
de O esganar.
Chora? Será que chora
o Menino – me apavora
imaginar
que o Menino chora,
e não estertora,
é por respirar. Nasce
e o esboço de Face
tem de quem o olhar?
De qualquer Maria,
de um José qualquer,
daqui ou da freguesia
de Nazaré?
Com quem se parece?
Perguntei: com Quem?
Nasce – e apavora pensar
que nasceu alguém
que nasceu Alguém
no meu pesadelo
e o demônio vem
me anunciar
como um anjo fê-lo,
mas por me enganar;
e se persuade,
sabê-lo, quem há de?
Vou mandar matar;
a contabilidade
diz-me de dois anos
a engatinhar;
mas serei vassalo
e será maldade?
Ou somente rei
se o recusar?
E será bondade?
Apavora pensar
que posso bondade
com a Natividade
desse Rei dos reis
que é rei de Judá.
É saber: não há.
Mas nasce.... Nasce.
Razão é governar.
E para acalmar
só para acalmar
a superstição,
esta noite não,
mas ao levantar
vou mandar matar.
Massacre dos Inocentes. Léon Cogniet (1824).






quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

BARRA DE SÃO MIGUEL



O Mal é do outro
lado. O vulto de espuma
é a asa do Anjo

em pugna.
A noite
parece dissolver a Barra

e o voo do Anjo
solta umas plumas
de guardanapos.

Pede o menino
de brincadeira
que a mãe o enterre

ali na areia...
O infanticídio
é do outro lado:

atrás da Barra,
em Petrolina,
onde a menina

morre à peixeira.
Daqui até
ali no Gunga

é essa pugna
de que só vemos
asa de espuma.

Nem há borralho
de caetés;
na água límpida,

saber-se humano
é ser ufano
de ver os pés.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O ALZHEIMER NO POETA DA INFÂNCIA



Voltaste
e ninguém entendeu a volta.
Voltaste
e todos se perguntam por quê.
Condenado,
Tua pantomima aponta
para teu livro ainda por ler.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

NOTÍCIAS DO ESPELHO PARTIDO



Para Victor Grizzo.


I

No espelho do céu partido
um peixe se reflete e multiplica
em outros tantos, num cardume
que se refrata e se deforma

e nascem outros, oblongos,
pontiagudos, teleósteos:
mosaico efeito dos cacos
do espelho do céu, partido.

O primeiro peixe, vaidoso,
avô e pai do mar inteiro,
quem o jogou no espelho?

Quem o tirou do céu, da noite,
constelado e calmo e só,
estrela cadente, praieiro?




 II

Não se sabe quem o peixe-
estrela jogou no espelho:
também eu não sei por que
só eu vejo, ou vi primeiro.

Não sei por que, no cardume,
vejo o mesmo peixe múltiplo.
Vejo a chama, vejo o lume
e sei do milagre por último.

Se são cacos, era sangue
que devia haver no mar.
Não são cacos de um espelho?

Vermelho é o Mar Vermelho?
Atentado contra o czar:
sei de sangue azul no mar.




III

O sangue azul é da estrela-
peixe, e a coisa tá russa:
perdeste o senso, vê-la
foste tu, se ainda pulsa

e acreditas em lendas
que nos devolvem as rimas!
Abre as janelas, emendas
a noite na casa, cortinas

como gaze em torniquete
enquanto já se reflete
a lua no teu tapete

e o céu naquele espelho
partido que é o mar:
água-viva, Victor. Pinceladas

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015